quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Quando eu tinha 13 anos, descobri a morte. Digo descobrir, mas quero dizer refletir. Aos 13 anos eu refleti a morte pela primeira vez. Eu já sabia da sua existência, do papel de levar dos nossos olhos aquela pessoa que amamos (, e as que não amamos também). Quando eu tinha 6 anos, soube da morte do meu irmão. Minha mãe me sentou no sofá preto da sala (o mesmo local onde hoje é meu quarto e fica a minha cama), e me mostrou uma foto. "Esse é o seu irmão", ela disse. Lembro de ficar muito surpresa, porque se ele era meu irmão, como é que eu não tinha ouvido falar dele antes? Como é que eu não o tinha visto antes? Como não sentia sua falta? Todas as famílias tinham um segredo negro. Na minha opinião, esse era o nosso. Dias depois, lembro de revirar as gavetas em busca daquela foto. E eu chorei - chorei demasiadamente porque no dia que eu descobri sua ausência nasceu a sua presença em mim. E eu sentia falta. Era como um buraco aqui dentro. Aquela pessoa que eu nunca vi, nunca toquei, nunca senti - eu agora tinha saudades imensas. Projetei nele todas as minhas inseguranças. Comecei a pensar que eu nasci errado. Metade torta. Porque minhas irmãs se pareciam muito, e ele e eu deveríamos nos parecer também. Ele era a minha pessoa. Era nele que eu veria a semelhança de finalmente sentir que pertenço a esta família.

Quando eu tinha 13 anos, descobri a morte.

Não foi aos 6, como contei a história. Aos 6 eu apenas descobri a falta. (E não é a morte uma falta?). Aos 13, quando comecei a conhecer um estilo musical mais pesado. Quando comecei a sair sozinha, com amigos, sem a sombra da família. Quando bebi vinho sem a presença de adultos. Quando conheci pessoas que não precisava da autorização dos meus pais para que eu os continuasse a ver.

Aos 13, começou a reflexão de muitos aspectos da vida.

Tive consciência da minha existência.
E da não-existência também.

Aos 13, comecei a me questionar sobre aonde as pessoas iam quando deixavam o aqui. Futuro? Céu? Inferno? Um outro plano nessa mesma realidade? E tive a visão mais cética possível - elas deixavam de existir. Não só aqui, mas no todo. Elas deixavam de existir. E elas não voltavam mais. Não. Se um de meus amigos ou um dos membros da família morresse, eu não os veria nunca mais.

Isso me doeu com uma força sem igual.

Foi a minha primeira crise de depressão.
A consciência de que todos se iam. Pais, irmãs, amigos, cachorros, gatos, tudo. Todos. Eu chorava por dias. Engolia as lágrimas e esboçava uma face apática. Não via sentido na escola, na sociabilidade, em nada. Para quê isso tudo, toda essa burocracia de escola-universidade-trabalho se um dia todos se vão? Para quê fazemos isso tudo esperando o dia em que se possa viver de verdade, sem preocupação, seguros, se um dia iremos todos embora, e que isso pode acontecer bem antes do que imaginamos - se imaginamos? Não seria mais sensato viver o agora? "Mas as pessoas enlouqueceriam", foi o que pensei. A felicidade absoluta enlouquece. É disso que têm medo, da loucura. Por isso adiam tudo. Não querem todos felizes ao mesmo tempo. Mas esse esboço de segurança (escola-universidade-trabalho) não funciona. A vida é insegura. Nós somos inseguros. Não há do que fugir. É tudo feito de risco mesmo. Lembro de uma frase pichada que li esses dias em um muro da cidade, "Antes de agir pense duas vezes". É meio isso.

Quando eu tinha 13 anos, descobri a morte.

Chorei miseravelmente, abundantemente, desesperadamente nos braços da minha mãe. Na época eu tinha me afastado dela para poder crescer. Ficar independente. Mas quando descobri a morte, voltei com o rabo, os braços, a cabeça entre as pernas. Voltei como um bebê querendo voltar pro útero e desevoluir (se a palavra existe - senão, regresso). Lhe pedi ajuda pois não tinha mais para onde correr. A reflexão da morte me pegou, e eu não tinha para onde fugir.

O que não doeu depois que minha mãe não tinha respostas para me dar. O que não doeu depois que ela me abraçou dizendo que a vida era assim mesmo e que por isso mesmo tínhamos que aproveitar o tempo com quem amamos. Porque o tempo podia fazer a pessoa escapar de nós. (Nesse dia eu pedi para que por um segundo ela forjasse uma mentira afirmando que todos nos veríamos depois, de algum modo, mas sim. Para eu também forjar uma paz e dormir tranquilamente naquela noite.)

Foi uma das poucas vezes que engasguei de tanto chorar. E a dor - dói até lembrar. Algumas horas depois eu carregava uma cara séria, dolorida mas séria. Impassível. A cara da sabedoria.

Muitos anos e experiências depois, passei também pela descoberta e reflexão do amor. Essa foi semelhantemente dolorosa. Mas foi bem bonita. E me vi descobrindo o porquê de viver. Alguns de meus questionamentos cessaram.

O amor.  Isso seria a vida dentro de nós.
Amarmo-nos uns aos outros. Vida.

E que enquanto eu alimentasse isso dentro de mim, não teria morte que me levasse. E se talvez eu cultivasse isso nos outros, eles também não iriam.

É claro que isso se faz difícil muitas vezes, e eu mesma esqueço mais vezes ainda. E que na verdade talvez esteja consciente dessa descoberta apenas agora, enquanto escrevo esse texto.

Mas é isso.

Quando eu tinha 13 anos, descobri a morte.
E ainda dói, mas dói bonito.

"O contrário da morte não é a vida, é o amor" (Roberto Freire)

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